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A Escola Estadual Profª Edeli Mantovani e a pandemia do COVID-19


Data: 24 de agosto de 2021

O presente resultado de pesquisa derivou de um projeto elaborado por professores da área de Ciências Humanas, intitulado Patrimônios do Mato Grosso: a comunidade escolar e a pandemia do COVID-19, versão 2021. Por motivo de cautela, as atividades do projeto tiveram que ser suspensas, como, por exemplo, a atividade que orientava alunos a entrevistar pessoas mais antigas, portadores de memórias dos bairros que compõem a comunidade escolar. Felizmente, uma dessas atividades prosseguiu sem problemas adicionais: a elaboração de um questionário, formulado pelos professores Loriene Soares e Tiago Alinor H. Benfica, com a ferramenta Google Forms, que proporcionou perguntas em forma de resposta única, múltiplas respostas e em escala.

O questionário foi respondido pelos alunos durante o mês de abril de 2021. Ao todo, obteve-se 170 respostas, o que equivale a uma cifra próxima aos 10% dos estudantes, embora nem todas as questões fossem respondidas. Não se espera que os números revelem a realidade da comunidade escolar, mas sim que eles proporcionem uma aproximação, que forneçam algumas respostas e principalmente que instiguem questionamentos e interesses voltados às questões sociais.

Para responder o questionário, o colaborador (ou seja, quem colaborou com a pesquisa) precisaria ter acesso à internet. Portanto, alunos de famílias com dificuldades financeiras teriam mais obstáculos para responder. Mesmo assim, ao se esperar que algumas famílias pertencentes à classe média se destacassem no gráfico, o resultado surpreendeu:

Um terço das respostas apontaram para uma renda familiar de dois salários mínimos. Quando agrupadas, 80% das respostas indicaram uma renda entre 1 e 3 salários. Cerca de 10% possuem renda de mais de 4 salários mínimos, e com essa mesma cifra, estavam as respostas de quem assinalou não saber a renda familiar (6,4%) ou que estavam desempregados todos os membros da família (3,5%).

A maioria dos alunos disse possuir internet wi-fi em suas residências, o que já era esperado para os colaboradores deste questionário. Cerca de 25% dos alunos que o responderam apontaram que têm apenas plano de internet pré-pago em aparelho celular ou que divide a internet com vizinho. Isso já demonstra que uma quantidade bastante expressiva de alunos não têm acesso à internet para assistir a aulas on-line.

Com relação aos parâmetros raciais/cor de pele, a grande maioria dos alunos se idenfica como pardo ou negro e menos de um terço se identifica como tendo cor branca. Alunos indígenas são raros, embora manifestem presença.

Com relação ao perfil econômico das famílias, quase metade delas possuem como provedor a figura paterna. Cerca de um terço das famílias são sustentadas pelas mães dos alunos; esse número é ainda maior se se levar em conta que há alunas mães que também são chefes de família. Dessa forma, pode-se afirmar que em metade das famílias, a figura paterna não é a provedora:

No questionário, havia uma pergunta que buscava observar como eram as condições dos alunos para estudarem em casa. No que diz respeito aos aspectos materiais, as respostas buscavam uma aferição regular das condições referentes a local próprio para estudos, climatização, qualidade da internet, cadeira. A situação teve uma valoração mais negativa com relação a escrivaninha ou mesa para estudos, ambiente silencioso ou próprio para estudos e computador de mesa/notebook ou tablet. Na verdade, metade dos alunos mencionaram não ter nenhum computador ou tablet em suas residências, e 40 % dos alunos que se utilizavam do celular para estudar reclamavam da qualidade do mesmo. Além desses fatores, mais de 70% dos alunos queixavam-se de não ter disponibilidade de tempo para estudar!

Essas informações permitem antever mais um fator a desafiar a qualidade da educação: além de se estar em uma pandemia, a maioria dos alunos que não possuem boas condições para estudar (principalmente ausência de computador e local para se concentrar nos estudos, além de muitos não terem acesso a internet de boa qualidade), o mercado de trabalho acaba por ser mais um concorrente, pois muitos alunos, de famílias de classes economicamente mais baixas, “aproveitaram” a pandemia para adiantar ou ampliar sua presença no mercado de trabalho. Seriam esses trabalhos planejados para proporcionar uma experiência técnica aos alunos, ou tão somente voltados a exploração de mão de obra barata e precoce? Teriam eles optado por trabalhar durante o horário de aulas para terem maior acesso a bens de consumo, como roupas, calçados ou eletrônicos; ou essa escolha foi condicionada pela necessidade de suporte material à família?

Com relação aos procedimentos adotados para contornar o impacto da pandemia e as medidas restritivas, a maioria dos alunos disseram que possuem menos interesse nos estudos online e também que a qualidade da aula ofertada diminuiu. Menos de um terço das famílias teve algum membro que trabalhou na modalidade de  home office durante a pandemia.

Não poderia faltar, num questionário em época de pandemia, uma pergunta a respeito dos efeitos do COVID-19. Ao se perguntar se alguma pessoa da própria casa foi contaminada com o vírus, metade dos alunos responderam positivamente, e desses, as mulheres foram as mais atingidas. Faltam números para comparar com os números oficiais de Sinop, mas, se algo próximo a metade das residências tiverem sido contaminadas com o vírus, esse é um número espantosamente elevado, conforme segue:

Das pessoas que tiveram COVID, apenas 17% assinalaram que não apresentaram sintomas e que souberam do contágio por terem feito testes. Devido a uma falha na elaboração do questionário, não se pode afirmar se foram 6 ou 12 as pessoas que precisaram ser internadas (dos 98 respondentes da pergunta). Do total até o mês de abril, registrou-se 4 mortes em famílias da comunidade da escola Edeli Mantovani.

Com relação a um possível aumento de violência doméstica durante a pandemia, 15% dos respondentes disseram conhecer algum relato de pessoa próxima que sofreu violência, seja ela física ou sexual. Portanto, essa é uma situação que merece atenção e vigilância, embora sejam, felizmente, casos raros, eles estão presentes

Essas informações foram colhidas em uma das maiores (ou maior) escolas de Sinop. Quanto será que essas informações convergem ou divergem de outras localidades? Difícil saber, pois as escolas estaduais quase não se comunicam entre elas.

A tecnologia da informação parece ter a capacidade paradoxal de aproximar e afastar as pessoas. Se os alunos da escola Edeli Mantovani não tiveram boas condições para a realização de estudo online, e muitas famílias sofreram com o COVID-19, aqui se pergunta: e os professores? Quais foram as realizações ou conquistas obtidas durante a pandemia? E quais foram as frustrações? Reflexões essas que a rede social pouco contribuiu para que essas questões se convertessem em um debate público.

Vamos escrever sobre educação pública?

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